A CBF oficializou hoje a chamada "unificação dos titulos nacionais". A partir de hoje, considera formalmente campeões brasileiros os ganhadores da Taça Brasil e do torneio Roberto Gomes Pedrosa.
A medida tem impacto imediato nas discussões de mesa de bar, em que um torcedor diz ao outro coisas relevantes como "meu time é mais bonito que o seu". Agora os torcedores do Santos e do Palmeiras poderão dizer "meu time é octacampeão brasileiro".
O assunto não é novo. Já faz algum tempo que é discutido. A decisão da CBF é que vem num momento, no mínimo, suspeito. Não é só pelo fato de que o forever está no cargo há mais de 20 anos e somente agora "fez justiça". É porque São Paulo e Flamengo enfrentaram na eleição do Clube dos Treze o grupo apoiado por Teixeira.
A vingança do cartola foi, primeiro, reconhecer o Sport como campeão brasileiro de 1987 - um assunto que sempre gerava polêmica. Tanto Flamengo como Sport sempre se consideraram campeões daquele ano. Tudo bem, esta postura da CBF não é nova. Mas se a entidade levantou a voz mais uma vez, certamente não foi baseada em critérios esportivos.
Agora a CBF faz o Palmeiras e o Santos serem octacampeões brasileiros, numa provocação clara ao São Paulo, que chegou ao hexacampeonato em 2008 (e se o Flamengo foi penta ou hexa em 2009 a discussão já é outra). Ricardo Teixeira tira o São Paulo do seu "primeiro lugar" em títulos Nacionais, e ironicamente usa para isso dois torneios e um deles leva o nome de um senhor que foi goleiro e presidente do time tricolor.
Ocorre que a CBF (CBF uma ova. Neste caso, a "entidade" tem nome e sobrenome) misturou peras con laranjas ao tomar esta medida. Veremos por quê.
Taça Brasil
Foi assim: em 1958 a Conmebol, em congresso realizado no Rio de Janeiro, decidiu criar a Taça Libertadores da América, disputada a partir de 1960. E quem seria o representante brasileiro? Foi daí que surgiu a solução de criar a Taça Brasil, reunindo os campeões de todos os estaduais. E os times mais fortes entravam só nas fases finais. O torneio foi disputado entre 1959 e 1968.
Normalmente jogava apenas um time de cada estado; mas em quatro ocasiões houve dois paulistas (e olha que São Paulo e Corinthians nunca participaram), em 1967 houve dois mineiros e em 1968, já enfraquecida, a Taça Brasil não teve participação de times paulistas.
Como o futebol brasileiro não se destaca exatamente por sua organização, em 1965 e 1968 a Taça Brasil não classificou seu campeão para a Libertadores do ano seguinte. Em 1966 porque os brasileiros estavam descontentes com a ampliação do torneio continental (que receberia também o vice-campeão de cada país); e em 1969 porque a Taça Brasil de 1968 - que viria a ser a última edição do torneio - ainda não havia terminado quando começou a Libertadores.
Roberto Gomes Pedrosa (Robertão)
Quando o torneio Rio-São Paulo foi ampliado, em 1967, ganhou o nome do ex-goleiro do Botafogo, São Paulo e da seleção brasileira (jogou a Copa de 1934) - ele também presidiu o São Paulo e a Federação Paulista. A primeira edição ampliada teve cinco clubes paulistas, cinco cariocas, dois mineiros, dois gaúchos e um paranaense. Acrescentou-se um baiano e um pernambucano a partir do ano seguinte.
Entre 1968 e 1970, os únicos times que "variaram" no torneio foram os de Pernambuco e Paraná (os campeões estaduais) e o quinto carioca (Bangu/América). Os demais 14 times eram fixos: eram os chamados "grandes" de São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul, além do Bahia e da Portuguesa.
Novamente, como a organização não é exatamente uma virtude no futebol brasileiro, o Robertão de 1969 não enviou representantes para a Libertadores seguinte. Fluminense e Palmeiras, campeão e vice do ano de 1970, foram os únicos clubes que o Robertão mandou para a o torneio continental.
Somando peras con laranjas
O leitor certamente conhece um torneio disputado no Brasil pelo campeão de cada estado (e pelo vice também, além de 10 times convidados com base num ranking) em formato mata-mata, tal como foi a Taça Brasil. Assim sendo, por que a CBF não pode incluir nesta soma de peras con laranjas o campeão da Copa do Brasil? Gremistas e corinthianos ficariam satisfeitíssimos: seriam heptacampeões brasileiros. Estariam acima, portanto, do desafeto de Ricardo Teixeira, o São Paulo (que nunca foi campeão da Copa do Brasil).
Embrião do campeonato brasileiro
Os defensores da unificação de títulos dizem que o Robertão é o embrião do campeonato brasileiro. Há uma detalhe irônico que demonstra o fato. Falei de 14 times que eram fixos no torneio. Não eram mudados, não passavam por nenhum tipo de "rebaixamento". E treze deles eram exatamente os que, quase vinte anos depois, fundaram o Clube dos Treze.
O Robertão foi, de fato, embrião de uma mentalidade atrasada no nosso futebol: a de que "time grande não se rebaixa". Quando o Grêmio caiu em 1991, fizeram mutreta para que o tricolor gaúcho voltasse logo à série A (nota: nos anos anteriores, dois times subiam; em 1992, subiram DOZE. O Grêmio foi nono). Em 1996, uma virada de mesa impediu o rebaixamento do Fluminense - descenso que acabou "ocorrendo de novo" no ano seguinte (desta vez de fato). Em 1999, uma interpretação torcida do regulamento foi feita para salvar o Botafogo (mutreta novamente), só que o episódio tomou proporções maiores e foi parar na justiça comum. Solução: o Clube dos Treze organizou o campeonato de 2000 à sua maneira (o Corinthians foi vice-lanterna, mas não havia rebaixamento; o Fluminense subiu da série C direto para a série A).
Dois campeões no mesmo ano
E para coroar a coerência da CBF nesta unificação de títulos, os anos de 1967 e 1968 possuem... dois campeões brasileiros! Ou não, como diria Caetano Veloso. Porque em 1967 o Palmeiras venceu tanto a Taça Brasil quanto o Robertão. Trata-se de um caso inédito de time que foi "bicampeão nacional" em uma única temporada.
Argumentação fraca
Alguns argumentos apresentados a favor da unificação:
* A Revista Placar acha que o futebol brasileiro começou no ano em que foi fundada. (Ou seja, a culpa é da imprensa, nunca da cartolagem)
* Como pode o país tricampeão do mundo não ter um campeonato nacional? (O país campeão de 1958 não tinha nem a Taça Brasil)
* Não se pode negar a um jogador como o Pelé o título de campeão brasileiro. (Pelé não foi campeão brasileiro porque não havia campeonato brasileiro na época. E, cá entre nós, ele precisa disso pra ser maior do que já é?)
Cada coisa em seu lugar
A Taça Brasil teve o mérito de ser o primeiro torneio verdadeiramente nacional num país grande, mas porcamente integrado. Foi criada com um objetivo (se não fosse a Libertadores, ficaríamos muito tempo mais sem ter um campeonato brasileiro) e passou por uma fase de decadência, até ser extinta.
O Robertão foi um torneio feito de times grandes. Um campeonato brasileiro elitizado. Ganhou a importância que a Taça Brasil perdeu. E foi substituído em 1971 pelo Campeonato Brasileiro, que teve dois momentos críticos (1987 e 2000) mas está aí até hoje e desde 1989 convive com a Copa do Brasil.
"Não é necessário ainda juntar todas essas competições para se contar corretamente a história. Pelo contrário, as histórias são diferentes. Cada uma teve seu charme", escreveu Tostão em sua coluna no último domingo, na qual argumenta que a festa já aconteceu em campo e que, por isso, não dá importância a esta mudança. Palavra de quem foi campeão da Taça Brasil. E artilheiro do Robertão de 1970.
Os campeões
Taça Brasil
1959 - Bahia
1960 - Palmeiras
1961 - Santos
1962 - Santos
1963 - Santos
1964 - Santos
1965 - Santos
1966 - Cruzeiro
1967 - Palmeiras
1968 - Botafogo
Roberto Gomes Pedrosa
1967 - Palmeiras
1968 - Santos
1969 - Palmeiras
1970 - Fluminense
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